09 maio 2013

reflexões hospitalares



Curitiba, primeiro de maio de 2013.
É dia do trabalho e por isso não há quase ninguém trabalhando. Os corredores do hospital estão vazios e solitários. Estou em meu primeiro dia de pós-operatório. Embora já possa caminhar, fui tornado protocolarmente inválido pelo uso compulsório da cadeira-de-rodas.
Primeiro, a tomografia computorizada: a frieza da sala, o silêncio da moça, o ruído da máquina. Em seguida, a radiografia: a sala está ainda ocupada, e sou deixado em espera próximo à porta semi-aberta. Estendido sobre a mesa, o outro paciente tem a cabeça enfaixada, o que me faz pensar que já fora operado. Aguarda paciente, ele também. Seu pijama azul-celeste de seda só pode ter sido comprado por uma esposa dedicada e bem-intencionada. Suas mãos, pousadas sobre o abdome, tremem um tremor grosso e contínuo, tremor parkinsoniano que somente cede com cirurgia (não teria, então, sido operado ainda? ou a cirurgia não foi bem sucedida?).
Eu o vejo, ele não me vê, olhar inexpressivo e paralisado sobre ⎯ ou seria sob, neste caso? ⎯ o teto. Enquanto aguarda, inicia uma jornada com os dedos para localizar os botões do pijama azul de seda. Quando consegue firmar as mãos sobre o botão e a casa, elas param de tremer por alguns instantes, e o restante todo do corpo assume o trabalho involuntário de se mover sem objetivo e sem destino, como o robô de lata de minha infância que balançava os braços, e seu o pegasse pelos braços, balançava todo o resto do corpo. Foram dez minutos assim, ou menos, já que a angústia dilata o tempo, para fechar os quatro botões. Depois foi levado. Minha vez. Espero que tenha mais sucesso em sua próxima cirurgia.


04 junho 2012

a psicanálise revisitada - 2

A mente será para a biologia do século XXI o que tem sido o gene para a biologia do século XX”, afirmou Kandel, ainda no final deste. Sua antevisão, que vem seconfirmando até aqui, inclui grandes progressos na compreensão das bases biológicas dos processos mentais inconscientes, dos transtornos mentais e de sua cura.
Ao estudar como se formam as memórias - especialmente aquelas que permanecem inconscientes e que determinam a maior parte de nossavida mental - a biologia tem podido confirmar várias hipóteses da psicanálise e, sobretudo, a importância das vivências mais precoces da criança. Freud e seus seguidores, com base no recurso limitado de recuperação de memórias ao longo do tratamento analítico, intuíram que os primeiros anos de vida são os mais determinantes para o desenvolvimento da pessoa. Eric Kandel retoma essa hipótese e as inúmeras evidências que apontam para uma íntima relação entre estresse e abandono na primeira infância e as predisposições para o desenvolvimento posterior de sintomas psicopatológicos.


No campo dos fatores emocionais da psicopatologia, por exemplo. Ainda na primeira metade do século XX, Anna Freud, que seguiu a carreira do pai, foi uma pioneira no estudo do vínculo entre mãe e bebê e de sua importância para o desenvolvimentode um senso de segurança e confiança. Nas décadas de 50 e 60, Harlow e seus colaboradores estudaram o impacto, em macacos, da separação dos bebês de suas mães entre os primeiros seis meses a um ano de vida, concluindo que este é, tanto para esses animais como para humanos, um período crucial no desenvolvimento de habilidades sociais e de equilíbrio emocional. Na mesma época, Bowlby formulou a ideia de um sistema de apego, baseado nas respostas que os pais (cuidadores) dão aos sinais emitidos pelos bebês quando estes se encontram em situação de desconforto (fome, frio, abandonoetc.), assinalando a maneira como as repetição de experiências negativas, de frustração, ficam marcadas na memória inconsciente determinando futuros padrões de emoção e comportamento.
O esclarecimentodo eixo comum a esses trabalhos - o desen-volvimento de sequelas emocionais e comportamentais resultantes da privação materna para o bebê - recebeu uma importante contribuição de um grupo de pesquisadores que, em meados da décadade 60, descobriu que tanto os seres humanos quanto os animais de laboratório respondem igualmente ao estresse com a ativação de um sistema de regulação hormonal, o eixo hipotálamo-pituitário-adrenal (HPA). Trata-se do sistema que libera o cortisol, hoje já bem conhecido como o “hormônio do estresse”, que tem várias efeitos neuro-tóxicos. Os estudos revelaram que o apego mãe-bebê, por outro lado, reduz as respostas do eixo HPA. Em outras palavras, a separação dobebê de sua mãe, assim como um vínculo insuficiente, provocam danos neuronais que explicam vários aspectos da predisposição futura aos transtornos mentais, e especialmente os déficits de memórias da infância tão comumente observada em pessoas que passaram por essas experiências.
Esses estudos ajudaram a esclarecer, também, o equívoco de outra hipótese de Freud: a de que as pessoas normalmente esquecem as lembranças dos primeiros anos de vida por um processo de repressão, ou seja, por um mecanismo de defesa psicológica. Não somos normalmente capazes de recuperar essas lembranças porque nosso sistema nervoso central não está em condições de registrar, pelo menos nos sistemas de memória acessível à consciência, esses eventos. Já a hiperatividade do eixo HPA e asobre-exposição ao cortisol agravam ainda mais essa amnésia fisiológica.
Não há dúvidas deque interdisciplinaridade é o caminho mais promissor para o desenvolvimento doconhecimento científico, e isto é ainda mais verdadeiro quando se trata doconhecimento da mente humana. Entre os vários outros autores vêm trabalhando no intuito de fomentar o diálogo entre a psicanálise e as neurociências, Karen Kaplan-Solms e Mark Solms (2000), os pioneiros da chamada “neuro-psicanálise”, têm se dedicado a correlacionar os vários sistemas funcionais descritos pela psicanálise à anatomia cerebral, especialmente através do estudos de pacientes com lesões cerebrais. Entretanto, é o tema do inconsciente aquele que representa a mais importante fronteira para o intercâmbio de teorias, e a maior promessa para a construção de um novo corpo unificado de conhecimentos, na interface entre psicanálise e psicologia cognitiva.
Uma visão unificada do inconsciente já vem sendo construída não só entre pesquisadores mas também na clínica, por terapeutas que não temem integrar recursos provenientes de diferentes modelos, com o intuito de proporcionar alívio aos pacientes. Vamos nos aproximando da construção de um “novo inconsciente” que rompe com os preconceitos sectários tanto de cognitivistas quanto de psicanalistas. (continua)

Kaplan-Solms, K. & Solms, M. (2000) Clinical Studies in Neropsychoanalysis. New York: Karnac Books.

20 maio 2012

a psicanálise revisitada - 1



Freud iniciou sua carreira médica como neurologista e neurocientista. Há quem afirme que, tivesse ele seguido com seus estudos sobre o sistema nervoso de animais invertebrados, e teria provavelmente descrito a estrutura dos neurônios como a conhecemos hoje. Foi como neurologista que entrou em contato com os quadros de histeria que serviram de base para o desenvolvimento da teoria e do método psicanalíticos. De fato, as então denominadas neuroses histéricas mimetizam os sintomas neurológicos, embora não apresentem nenhuma lesão propriamente neurológica que os justifique. Em busca da compreensão e da cura para as paralisias, amnésias e alterações de consciência apresentadas pelos pacientes conversivos (histéricos), em sua maioria mulheres, Freud chegou à conclusão de que eram causadas por conflitos psíquicos aos quais o paciente não tinha acesso consciente. Para desvendá-los, criou o método da livre-associação que deu origem à psicanálise.
Apesar da enorme contribuição que deu para o conhecimento da mente humana, Freud, com sua aguda percepção do mundo, sempre soube reconhecer os limites e a provisoriedade de sua teoria, como das ciências em geral. Não surpreende que tenha previsto os avanços que estamos assistindo hoje nesse conhecimento. “As deficiências de nossa descrição”, escreveu ele em 1920, “desapareceriam provavelmente se já estivéssemos em condições de substituir os termos psicológicos por outros fisiológicos ou químicos”. Freud anteviu não só o desenvolvimento da neurociência como a possibilidade de tratar com medicamentos muitos dos sintomas psiquiátricos sobre os quais a psicanálise tinha pouca eficácia.
Com o passar do tempo, na medida em que se multiplicaram e institucionalizaram os diferentes modelos antropológicos, psicanalíticos, psicológicos e psiquiátricos sobre a saúde e a doença mentais, os diálogos entre estes foram se tornando progressivamente mais estereotipados e improdutivos. Ao contrário de Freud, cuja obra é fundamentalmente interdisciplinar, tanto seus seguidores quanto seus detratores persistem no apego a uma duradoura e deletéria dicotomia entre corpo e mente, natureza e cultura, ou biologia e aprendizagem.
Foi necessário alguém com a autoridade de um Prêmio Nobel em Medicina (2000) para ampliar o diálogo entre psicanálise eneurociências, e lhe conferir a importância devida, pelo menos no contexto da comunidade psiquiátrica mundial. Eric Kandel é um neuropsiquiatria norte-americano, nascido em Viena (onde Freud viveu e produziu a maior parte desua obra), que iniciou sua carreira estudando psicanálise, tendo migrado depois para as neurociências em busca de uma maior compreensão dos mecanismos neurofisiológicos da memória. Este austríaco fez, portanto, o caminho inverso ao de seu compatriota mais famoso: partiu da psicanálise para chegar às neurociências.


Como alguém oriundo do campo da psicanálise, Kandel fala com autoridade quando sugere que ela tanto pode indicar caminhos importantes para a pesquisa neurocientífica, como renovar-se a partir desta última. Suas propostas, ainda que fundamentadas em sólido arcabouço científico, podem causar desconforto nos cartesianos mais ferrenhos, pois rompem com uma concepção metafísica da mente, localizando na atividade cerebral o registro e a dinâmica de toda a vida interior. Isso não significa reduzi-la ao seu substrato biológico, nem tampouco, como veremos, menosprezar a importância das experiências emocionais. Ao contrário, Kandel se preocupa em entender como asubjetividade é construída a partir dessas experiências, na medida em que ficam indelevelmente registradas no tecido nervoso e determinam as respostas às novas situações vividas pelo indivíduo. Aliás, é bom lembrar, seus estudos sobre a memória foram primariamente motivados pelo reconhecimento da importância das vivências mais precoces para o resto da vida das pessoas.
No importante artigo “Biology and the Future of Psychoanalysis”, publicado originalmente em 1999, Kandel (2005) assinala a estagnação da psicanálise como fonte de novos aportes à compreensão da mente, e o declínio de sua influência. Ele reconhece as potencialidades surgidas do diálogo entre as ciências cognitivas e a neurociência, e acrescenta: “Minha esperança é que, ao juntar-se à neurociência cognitiva no desenvolvimento de uma nova e estimulante perspectiva sobre a mente e seus distúrbios, a psicanálise reconquiste sua energia intelectual”. Em seguida, descreve alguns pontos de intersecção entre a esta e a biologia e sugere como podem vir a serem investigados, alguns dos quais resumirei a seguir. (continua)

Kandel, E.R. (2005) Psychiatry, psychoanalysis, and the biology of mind. Arlington: American Psychiatric Association.

11 novembro 2011

os outros que somos




NUNCA antes, em sua breve história, a humanidade vivenciou mudanças tecnológicas e culturais tão rápidas e dramáticas; e nunca antes esteve o ser humano exposto a tantas – e tão desencontradas – informações e influências culturais. Quais as consequências disso para a sociedade como um todo, e para cada indivíduo? Há aí um risco para o senso de identidade e segurança emocional, ou para a saúde mental dos indivíduos que viajam rumo ao desconhecido nesta grande espaçonave Terra?

É disto que trata Os outros que somos: dilemas da identidade contemporânea, livro de estréia do médico psiquiatra e psicoterapeuta Ercy Soar. O livro discute a identidade, em cuja formação as influências sociais (“os outros”) ocupam um lugar essencial; e especificamente a identidade na sociedade contemporânea, na qual os outros se dissolvem, se multiplicam, se contradizem, se sobrepõem, de tal sorte que o indivíduo pode ver-se atrapalhado e sem referências seguras. Se por um lado o sujeito contemporâneo está mais informado, por outro lado tem menos certezas. Pode desenvolver uma maior individualidade, enquanto se vê mais solitário. Usufrui de maior independência, ao custo de menor senso de segurança...

O livro tem três partes, nas quais são desenvolvidos progres-sivamente os seguintes temas: a formação da identidade pessoal e social (interdependentes e indissociáveis); as características da sociedade contemporânea, globalizada, interconectada, tecnificada e pluralista; e as consequências dos processos sociais em curso para a saúde mental dos indivíduos. Uma obra definida pelo autor como “de divulgação científica”, que foge aos jargões acadêmicos e busca incluir o leitor nas reflexões que Ercy Soar vem desenvolvendo a partir de sua formação acadêmica e de sua prática clínica.

OS OUTROS QUE SOMOS: DILEMAS DA IDENTIDADE CONTEMPORÂNEA, Ercy Soar, Editora Unisul, à venda com o autor, no site da Editora Unisul, nas lojas e no site da Livraria Cultura, da Livraria Saraiva e da Livrarias Catarinense. Em Curitiba, está à venda na Livraria do Chaim.

06 novembro 2011

finanças comportamentais



Lançado no último dia 04 de novembro, o livro Finanças Comportamentais: como o desejo, o dinheiro e as pessoas influenciam nossas decisões será uma obra de referência no campo da psicologia cognitiva aplicada às finanças, área em que o primeiro autor Jurandir Macedo Jr é pioneiro no Brasil. Os outros dois autores, Régine Kolinsky e José Carlos J. de Morais são radicados na Bélgica e donos de uma extensa produção científica na área de psicologia cognitiva.
Jurandir Macedo além de professor da UFSC, consultor do Banco Itaú, é fundador do Instituto de Educação Financeira em cujo site (aqui) publica muitos artigos de interesse na área de finanças pessoais.

05 novembro 2011

o novo inconsciente


Publicado este ano, O Novo Inconsciente: como a terapia cognitiva e as neurociências revolucionaram o modelo do processamento mental, do neurocientista e professor da UFSC Marco Callegaro, traz uma importante contribuição ao campo das ciências da mente, integrando conhecimentos de áreas até então bastante distanciadas, como as neurociências e a psicanálise.
Este livro segue a trilha aberta por outros dois livros homônimos publicados em 2005, quando já tinha o projeto de seu livro e andamento: The New Unconscious (Glasser e Kihlstrom) e The New Unconscious (Hassin, Uleman e Bargh). Todos eles resgatam a noção freudiana de inconsciente, até então explicitamente negada pelas ciências cognitivas, embora implicitamente reconhecida naquilo que lhe é fundamental: que não somos guiados por nossa consciência, e que esta não passa da ponta visível do enorme iceberg que compõe o conjunto das funções mentais.
Diga-se de passagem, este objetivo não é original. O campo da neuro-psicanálise conta com as contribuições de Solm e Kandel - para citar apenas dois nomes influentes - e, no Brasil, os estudos de Vera Lemgruber para o entendimento das psicoterapias. Eu mesmo tenho publicado um artigo em 2003 ("Psiquiatria e pensamento complexo") e um capítulo de livro em 2005 ("Para uma concepção ecossistêmica e interdisciplinar do self") que são tentativas de discutir as bases epistemológicas para um diálogo interdisciplinar, e para uma síntese transdiciplinar, nas ciências da mente. O mérito de Callegaro está na ampla revisão de estudos e nas próprias contribuições ao campo das neurociências.
Na definição de Callegaro,
o novo inconsciente envolve uma miríade de circuitos neurais que se encarregam do trabalho rotineiro pesado, deixando a consciência livre para focalizar os problemas novos a resolver. Se não fosse assim, o monumental trabalho realizado pelo cérebro para computar as características físicas dos estímulos externos inundaria nossa consciência, tornando-a inoperante. (p.31)
A consciência opera através de um processamento serial das informações e com uma memória de trabalho explícita, que permite a percepção do aqui-e-agora. Enquanto isso, o inconsciente opera com processamento paralelo, e com uma memória de trabalho implícita, o que explica não apenas o fato de que aprendemos de forma inconsciente, como somos capazes de algo que parece ser uma contradição de termos: o insight inconsciente.

09 outubro 2011

entrevista


Fui "sabatinado" sobre OS OUTROS QUE SOMOS, com muita competência, aliás, pelo Prof. Eloy Simões, de Comunicação Social da Unisul. Aqui está o resultado:

Por tudo isso, melhor do que falar sobre ele, é ele falar sobre o livro. E pra falar sobre o livro, ninguém melhor que o próprio autor. Pra começar, pedi que ele dissesse qual é o público-alvo do livro. E por que. Ele disse:

“O livro trata exatamente dos dilemas e desafios criados pela vida como a conhecemos em nossos dias. Os dilemas aos quais estamos sujeitos nós todos, como membros da sociedade contemporânea. E quando falo em contemporaneidade, estou pensando naqueles que já se encontram incluídos em padrões de consumo e de inserção digital. Meu leitor imaginário é, portanto, uma pessoa suficientemente informada, com acesso à Internet, publicações e TV a cabo. Idealmente, é alguém com formação universitária, embora não necessariamente nas áreas de ciências humanas ou de ciências da mente.”

Então, provoquei: seu livro pode ser considerado como de auto-ajuda ou de auto-conhecimento? De que maneira ele ajuda? Por que o auto-conhecimento nos tornaria melhores e mais felizes?

“Um psicoterapeuta deve partir do pressuposto de que o autoconhecimento é importante para vivermos melhor, senão mais felizes. Acredito que, quando somos capazes de identificar as fontes de desconforto psíquico, de dar nomes aos sentimentos, de construir sentidos aos fatos que marcam nossa vida, as possibilidades de superar as dificuldades são maiores, ou de lidar com as limitações, quer sejam externas ou internas a nós mesmos (embora esta distinção seja bastante difícil de estabelecer, ou mesmo inexistente, na maioria das vezes). Mas, retornando à primeira parte de sua pergunta: não, não é um livro de auto-ajuda, se você entender por isto um livro que se proponha a dar conselhos e a dizer ao leitor o que fazer... Minha preocupação é propor questões, ajudar o leitor a refletir sobre desafios que ele enfrenta (no mais das vezes sem sequer se dar conta), a pensar sobre o significado e as implicações de se viver na sociedade em que vivemos."

A pergunta seguinte foi: o senhor mostra, no livro, o verdadeiro bombardeio de influências contraditórias e mudanças de costumes a que estamos submetidos. Como encontrar, no meio dessa selva, o caminho correto?

“O nosso ‘problema’ agora é que ‘o problema’ não esteja tão claramente definido, que para alguns ele exista e para outros não, e que não tenha apenas uma solução, pois, felizmente, não vivemos mais no tempo das verdades absolutas. O conhecimento, como tento deixar claro no livro, é, ao mesmo tempo parte da solução e do problema... Tanto mais conhecimento, menos certezas! Tanto mais informação, mais dúvidas! É um paradoxo do qual não podemos escapar... (mais)


08 outubro 2011

01 outubro 2011

rumo ao abismo?



Sensacional esta coletânea de artigos curtos de Edgar Morin. Bom pra quem ainda não o conhece; bom pra quem já o conhece. O subtítulo: "Ensaio sobre o destino da humanidade" dá o tom das discussões. A coletânea foi publicada originalmente em 2007, mas a tradução sempre competente de Edgar de Assis Carvalho lançada no Brasil neste ano, pela Bertrand Brasil.
Você pode não concordar com tudo, mas não dá pra não reconhecer a riqueza do pensamento de Morin e a pertinência das questões que ele levanta. Reparem bem no problema da tensão inerente a ser singular e ao mesmo tempo universal. Na questão cultural, assim como étnica, Morin faz eco à genialidade de Gilberto Freire, já lembrada neste blog (aqui), como se vê nos trechos de "A cultura e a globalização...", transcritos mais abaixo neste post.
RUMO AO ABISMO?
Os desenvolvimentos da ciência, da técnica, da indústria, da economia, que doravante propulsionam a nave espacial Terra, não são regulados nem pela política nem pela ética nem pelo pensamento. [...] A barbárie odiosa oriunda do fundo das eras históricas se combina com a barbárie anônima e hostil da técnica própria à nossa civilização. A aliança entre elas ameaça o planeta. [...] As forças de resistência são fracas. As nações não podem resistir a uma expansão planetária incontrolada senão fechando-se de novo, de modo regressivo, em sua religião e em seu nacionalismo. A internacional cidadã em formação é muito frágil. Uma sociedade civil planetária não emergiu. A consciência de uma comunidade de destino terrestre é muito dispersa.


O DESAFIO DA GLOBALIDADE
Existe uma profunda cegueira na própria natureza do que deve ser um conhecimento pertinente. Segundo o dogma dominante, a pertinência cresce com a especialização e com a abstração. Um mínimo de conhecimento do que é o conhecimento nos ensina agora que o mais importante é a contextualização. [...] Marcel Mauss afirmava: "É preciso recompor o todo." Nós acrescentamos: é preciso mobilizar o todo. [...] Trata-se do problema universal de todo cidadão: como conseguir acesso às informações sobre o mundo e como ter a possibilidade de articulá-las e organizá-las, e com isso reconhecer e conhecer os problemas do mundo. Essa reforma, que inclui o desenvolvimento da contextualização do conhecimento, exige ipso facto a complexificação do conhecimento.

A CULTURA E A GLOBALIZAÇÃO NO SÉCULO XXI
O século XXI assistirá ao prosseguimento dos processos culturais concorrentes antagônicos e, por vezes, complementares que se manifestaram no fim do século XX: a ampliação da Internet como sistema neurocerebral artificial de caráter planetário, o desenvolvimento das multimídias, tudo isso vai acentuar e ampliar as tendências em curso e acentuar os antagonismos, de um lado, entre uma organização concentrada, burocrática e capitalista da produção cultural e, de outro, entre as necessidades internas de originalidade, singularidade, criatividade do ponto do produto cultural. [...] De forma semelhante, haverá desenvolvimento concorrente e interferente, de um lado, entre os processos de padronização cultural e, de outro, de individualização cultural não somente no nível das obras mas também de sua utilização.
Toda mestiçagem cria diversidade; reparem nas belas eurasianas e nas belas brasileiras. É preciso, também, deixar os homens e as culturas caminharem rumo à mestiçagem generalizada e diversificada, ela mesma, por sua vez, diversificante. [...] Todas as culturas têm uma possibilidade de assimilar o que lhes é inicialmente estrangeiro, pelo menos até certo limiar, variável segundo sua vitalidade e para além do qual são elas que se fazem assimilar e/ou desintegrar. Assim [...] devemos ao mesmo tempo, defender as singularidades culturais e promover as hibridações e mestiçagens: é preciso ligar a salvaguarda das identidades à propagação de uma universalidade mestiça ou cosmopolita, cuja tendência é destruir essas identidades.

03 agosto 2011

luto e depressão

Assim como se pode afirmar que a ansiedade e o medo são as reações naturais e esperadas frente ao desconhecido, a tristeza é a resposta normal frente às perdas de toda natureza: materiais, pessoais ou simbólicas. Entretanto, tem havido uma excessiva medicalização da tristeza e de outras características normais do comportamento humano. Esquece-se que a tristeza é fundamental para a elaboração de nossas experiências e para o aprendizado emocional. Se não nos entristecemos diante das perdas, ou dos sofrimentos próprios e alheios, não somos capazes de elaborar (resolver emocionalmente) essas experiências. A isto chamamos de “luto”, o período que se segue a qualquer perda importante.

Sem que possamos nos entristecer, ou seja, fazer o luto, não podemos tolerar as perdas inerentes à passagem do tempo e as mudanças do ciclo de vida. Afinal, perdemos parte da nossa liberdade individual quando nos casamos; perdemos parte das atenções do cônjuge quando temos filhos; perdemos os filhos quando eles crescem. Perdemos tempo de lazer quando nos tornamos adultos; perdemos idealizações e fantasias na medida em que deixamos de ser adolescentes; e perdemos força física e agilidade mental na medida em que envelhecemos. Aceitar as perdas e valorizar os ganhos que também ocorrem ao longo da jornada é a fonte da sabedoria e exige que possamos passar pela tristeza inerente a esse processo.

Trecho inédito do meu livro Os outros que somos, com lançamento em breve pela Editora Unisul.


29 julho 2011

dilemas da identidade


Na medida em que a tradição perde a força como fonte de conhecimentos, de modelos e regras, aumenta a reflexividade, já que tudo precisa ser pensado, ponderado e avaliado antes que as escolhas sejam feitas. Assim, as pessoas tendem a se sentir cada vez mais inadequadas, ao não saberem se as opções que fazem são “certas”, “saudáveis” ou “politicamente corretas”. O mais grave de tudo é que as dúvidas estendem-se inclusive sobre a representação que cada um constrói sobre si mesmo ao longo da vida, ameaçando a sua segurança ontológica: a segurança de sabermos quem somos, o que pensamos, como agimos, e assim por diante.

Trecho de Os outros que somos: dilemas da identidade contemporânea. Lançamento em breve pela Editora Unisul.


02 julho 2011

dilemas (2)


É falsa a crença de que o ser humano é por natureza solitário e egoísta, que encontra defensores ilustres, entre os quais Shopenhauer, que afirmam que o homem só busca o outro, ou só nutre uma amizade, por puro interesse egoísta. Tal concepção leva à conclusão de que viver em sociedade, e ter a necessidade de reconhecimento e de afeto de outros, é um distanciamento da verdadeira natureza humana. O ser humano deveria, nessa perspectiva, ser capaz de viver de maneira auto-suficiente e autárquica, e não depender da opinião alheia para a manutenção de sua auto-estima.

Ao contrário, como bem lembra Todorov em seu A vida em comum, não existe tal passagem da vida solitária à sociabilidade, pois esta precede o indivíduo. Os seres humanos “não vivem em sociedade por interesse ou por virtude ou por força de qualquer outra razão; assim o fazem, pois não há para eles qualquer outra forma de existência possível".


Trecho do meu livro Os outros que somos: dilemas da identidade contemporânea, com lançamento previsto para agosto, pela Editora Unisul.


27 junho 2011

dilemas (1)


Toda pessoa tem necessidade de reconhecer a si mesma, e de ser reconhecida, como uma pessoa única, entre tantas outras. Por outro lado, há a necessidade de pertencimento: a sensação de que não se está só, de que se faz parte de uma família, de uma comunidade, uma religião, uma cultura ou uma nação. A construção da identidade envolve, portanto, estas duas forças contraditórias e complementares: a vontade de ser único e a vontade de fazer parte.

Trecho do meu livro Os outros que somos: dilemas da identidade contemporânea, com lançamento previsto para muito em breve.


30 maio 2011

millennials



Global Youth or MILLENNIALS, the new generation.

Genial vídeo legendado que faz uma breve história da juventude na era da Internet, o que significa ser jovem em tempos de "consciência coletiva", e os desafios de ser jovem na sociedade contemporânea.